Eu queria que todos os carros fossem pra sempre como são nas concessionárias. Que bom seria, na verdade, nunca precisar de um carro. Sentir o vento na cara, a sensação de liberdade, a música preferida no talo, andando de bicicleta num campo verde, não com mil, mas dois, um, nenhum no lado, correndo rápido para o encontro com um chefe grandão, amarelado, quente, mas não tão enfervescente que derreta a Antártica.
Queria que os livros não tivessem última página e que as histórias nunca ficassem chatas por espicharem. Antes de "plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho" seria legal ler todas as histórias do mundo, pelo menos as mais bonitinhas.
Eu queria que a morte fosse menos superável. Queria ficar mais na fossa, prender a história das pessoas que morreram em balõezinhos e deixar eles por aí, flutuando no meu dia-a-dia. Imagina que legal se todos os cheiros me lembrassem meu avô? Todos menos o do cigarro que insiste marcar a morte de um dos caras mais cheios de vida que conheci.
Queria ter tempo pra todos meus projetos e que os dias tivessem 240 horas, nem que a gente tivesse que viver só até os 50. É tão chato não conseguir mergulhar e ficar lá, explorando todo o mar de cada coisa.
Eu queria que em toda esquina tivesse um "bosque das crianças" pra gente ir quando o calo apertar (todos nós já fomos calmante natural e não nos damos conta disso) e que minha mãe me deixasse ir lá sem avisar. Lá e em todos os lugares, sem avisar, sem pedir, sem nada. Eu queria entender ela, não deixar nada sobressair ao amor que eu sinto e queria saber dizer "te amo" sem ter medo, pras pessoas que ouvem pouco isso de mim. Melhor seria ainda se meu corpo soubesse falar nítidamente as coisas que se passam no coração.
Eu queria que declaração de amor fosse tão seguro como seguro de vida. Queria uma listinha de todos que assinaram o contrato seguida dos seus números atualizados de telefone, e de vez enquando ligar e abrir um baú engraçado, descontraído ou profundo, que principalmente dê orgulho de abrir e descobrir que com uma repaginada aqui, outra acolá, continua o mesmo repleto de histórias.
Queria achar todas as pessoas interessantes, por mais alienadas, tolas ou fúteis que elas pareçam ser. Descubro, de tempos em tempos, que a gente se engana com as pessoas e que muitas que não imaginávamos tem algo interessantíssimo pra dizer.
Eu queria me achar menos perfeita do que eu me acho. Queria entender que os defeitos existem em mim, e não vê-los é o mais grave deles. É difícil, dificílimo, reconhecer que você não é tão boazinha, sincera, madura e organizada como pensa ser. Você tem umas feiúras também e isso é a coisa mais normal do mundo.
Um novo verbo precisa ser inventado, afinal de querer casa do campo e não querer dinheiro já estamos meio cansados, mas enquanto um neologismo não chega, eu queria, ah, como queria.