Os verdadeiros senhores das armas

Poderíamos citar vários exemplos de filmes protagonizados por ladrões especializados e gângsteres, como Onze Homens e um Segredo, entre muitos outros. Um desses filmes hollywoodianos que parecem serem bem aceitos por todo mundo, O Senhor das Armas, tem como protagonista Nicolas Cage, que vive Yuri, um contrabandista internacional de armamentos diversos.
Não é preciso nem dizer que o filme é baseado em fatos reais. Os milhares de conflitos mundiais vigentes no minuto em que você lê esse texto, de alguma forma, precisam ser abastecidos de instrumentos que imponham o burro poder da força, que não respeita civis, crianças ou inocentes. E embora essa matança desenfreada seja um negócio muito lucrativo para países ricos como EUA, Reino Unido, França, Rússia e China (membros pertencentes a ONU), o comércio é feito por debaixo dos panos.
Assistir crianças matando e sendo mortas, tribos serem dizimadas, seres humanos perdendo a vida por caprichos tolos de uma meia dúzia de “Reis da prepotência”, pode deixar o espectador revoltado com o senhor das armas, sua fortuna e sua impunidade. Completamente compreensível, nenhum pouco questionável. No entanto, mesmo que não nos deparemos diariamente com essas batalhas, pouquíssimo divulgadas pela mídia, é importante analisar quem realmente propicia isso. O homem que repassa as armas e faz com que elas cheguem às mãos de meninos-soldados e chefes de estados ensandecidos? Sem dúvidas. Mas e os países produtores dessas armas, que lucram anualmente muito dinheiro com a venda delas para o mercado negro? Não contaram a eles que existem bilhões de dólares cobertos de sangue em suas contas?

Motorista, pára!

Muita gente não gosta de andar de ônibus, eu adoro! Algumas por frescura, já que "pegar condução" as iguala a todas as pessoas pobres que não tem dinheiro nem pra comprar um casaquinho nesse frio, muito menos um carro mantenedor de status. Outras pessoas, conheço um amigo que é assim, não gosta por outros motivos, por se sentir limitado, sufocado. Aí ele anda de bicicleta, e eu confesso, também ia preferir. Sou louca por bicicleta, pela liberdade que ela representa. Eu idealizo bicicletas, mesmo que ande, basicamente, uma vez por ano com a da minha mãe, emprestada. Minha primeira aquisição passa longe de um carro, será uma bicicleta! É uma pena que vivamos num país onde esse meio de transporte é tão pouco valorizado. Seria tão bom que houvessem bicicletas nas ruas pra alugar, como na Europa, e que algumas pessoas fossem assim pro trabalho, diminuindo a emissão de poluentes e o trânsito, o stress, que mesmo em Joinville encomoda.
Mas o assunto é: andar de ônibus têm lá suas vantagens. A gente vê gente diferente, escuta conversas malucas, cede o lugar pra uma pessoa e o olho dela brilha, encontra sempre bastante crianças. É como toda coisa da vida, tem um lado ótimo, mas tem seus momentos péssimos. Onde eu moro bastante gente anda de ônibus, inclusive estudantes de escola particulares como eu. Uns em particular me fazem sentir um pouco de vergonha de vestir o mesmo uniforme. De fazer parte do mesmo grupo de pessoas que diz que o mendigo pedindo ajuda no ônibus fede, que tal tênis ou programa é coisa de pobre. Sinceramente, eu não sei se mendigar seja a coisa mais certa a fazer quando se está abaixo da linha da pobreza, mas impressiona que pessoas cuja luta pra realizar seus sonhos é tão nula quanto a de um mendigo enxam a boca pra dizer "vai trabalhar", se queixam, esperam "esmolas" sentimentais, se consolam acreditando que o sol mesmo, só brilha pra poucos.
Estamos todos no mesmo barco, amigo. Se você fala mal de uma pessoa porque ela "fede" ou ri dela por não ter um tênis caro, quem sabe algum dia alguém ria de você, sua arrogância e inferioridade. Já que (novidade!), ainda existem pessoas que ficam felizes com um elogio aos seus textos, em ver um passarinho lindo parado na calçada, andar de bicicleta ou ver o sorrisso de alguém que pede ajuda num ônibus. Muitas pessoas não gostam de gente, eu adoro!

Jantar íntimo

Às vezes aquele papo, quase um clichê, de cuidar de si mesmo passa tão despercebido, e de repente, sem qualquer intenção a gente pára, faz uma arrumaçãozinha e começa a se deixar fazer aquelas coisas pequeninhas, bobinhas, que juntas constroem o sol nas nossas janelas. Tudo automático, sem manual auto-ajuda ou listinha de objetivos.
Pode começar numa tarde romântica, um monólogo na língua do i que só você e um baixinho (no meu caso, uma baixinha) entendem ou o fim de uma discussão materna horrível com um pedido de desculpa em forma da sua revista favorita. O caso é que da revista você faz um dia de leitura gostosa, do monólogo horas de risada e da tarde romântica, ah, já se basta. Daí tudo é paixão, riso, imaginação.
E quando as coisas começam a caminhar legal, os pés andam sozinhos pelo caminho deliciosamente corriqueiro, enquanto planejo um jantar gostoso em companhia de mais umas horinhas de leitura, poesia e cuidados extras comigo. Nem sempre o salão é o lugar mais certo pra levantar a auto-estima, além de mais barato e prático, preparar um jantarzinho simples e saudável pra curtir sozinha tem um poder incrível para voltarmos às nuvens em ser o que somos. E fica pra semana que vem o domingo cultural, quando a música é que vai cuidar de mim.

Sensacionalismo até nas ruas

Ando muito descrente, já há um bom tempo, e isso me preocupava um pouco. Mas com o tempo percebi que eu não estava descrente em tudo, afinal. Religião e política fazem parte de uma parcela pequeníssima das coisas que podemos acreditar. Ainda me sobraram de crenças o amor e a bondade de algumas poucas pessoas, a consciência socioambiental de outras, que se pode perceber ao ler Vida Simples ou, mais perto, a matéria do AN desse domingo sobre sacolas de tecido, entre tantas outras coisas em que eu acredito e que considero de extrema importância.
Sem contar que no que eu não acredito, não fecho a janela e me deixo surpreender. Se Deus existe e se algum político presta, não me impeço de acreditar. E o melhor é que não preciso decepcionar ninguém. Político não espera por credibilidade de ninguém e tudo o que as religiões dizem, salvo auto-violência e "assassinato religioso", sigo melhor que muito fiel por aí.
Então, vamos ao assunto em que quero chegar. Desde que me conheço por gente minha família é petista. Quando a gente é criança e resultado eleitoral é que nem final do Brasil na copa, eu torcia de forma ferrenha pelos candidatos com estrelinha vermelha no peito. Mas depois fui crescendo e virando mais cética e achei sensato que como não acredito, não devo opinar. No fim isso tudo acaba parecendo muito com time de futebol: cada um defende o seu, por maior que seja sua falta de razão.
Só que de vez em quando, mesmo quem opta por não opinar, opina. Porque uma das coisas que faz com que eu considere minha cidade que eu realmente gosto, como interior, como uma cidade pouco evoluída, é quando eu vejo outdoors na rua condenando um deputado federal por apoiar a legislação do aborto. Não vi muitos protestos em relação à isso, mas precisava escrever, nem que seja aqui, onde ninguém da cidade vai ler, pra manifestar minha revolta.
A prova de que a religião e a política, juntas, às vezes fazem um péssimo trabalho, são frases dizendo que quem é a favor do aborto não pode cuidar de você. Em um blog, esses dias achei uma definição com a qual minha opinião bate incontestavelmente: "... ninguém é “a favor do aborto”. Quem já conheceu uma mulher que passou pela cirurgia (e quem não conhece?) sabe que ela sempre representa um momento difícil, duro, de escolha penosa. Reduzir o número de abortos realizados no país é do interesse de todos. É uma pena que os que defendem a manutenção da criminalização do aborto não se mostrem muito preocupados em formular políticas para reduzir os 1,1 milhão de abortos realizados anualmente no Brasil, preferindo a via fácil do discurso moral e da pregação da abstinência que, já está provado, não funciona." (Cássio, O Biscoito Fino e a Massa).
O aborto é um daqueles assuntos longos, demorados e cheio de questões para debater. É óbvio que a orientação sexual, prevenção a gravidez indesejada, etc, são fundamentais e o aborto não deveria se tornar um ato anticontraceptivo corriqueiro, mas já que muitas mulheres, inclusive eu, consideram o direito de escolha SÓ delas, porque não deixar que a população debata isso seriamente, com as questões reais, que já são muitas? Se a gente quisesse sensacionalismo, ligaríamos a TV.

Enquanto o neologismo não vem...

Eu queria que todos os carros fossem pra sempre como são nas concessionárias. Que bom seria, na verdade, nunca precisar de um carro. Sentir o vento na cara, a sensação de liberdade, a música preferida no talo, andando de bicicleta num campo verde, não com mil, mas dois, um, nenhum no lado, correndo rápido para o encontro com um chefe grandão, amarelado, quente, mas não tão enfervescente que derreta a Antártica.
Queria que os livros não tivessem última página e que as histórias nunca ficassem chatas por espicharem. Antes de "plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho" seria legal ler todas as histórias do mundo, pelo menos as mais bonitinhas.
Eu queria que a morte fosse menos superável. Queria ficar mais na fossa, prender a história das pessoas que morreram em balõezinhos e deixar eles por aí, flutuando no meu dia-a-dia. Imagina que legal se todos os cheiros me lembrassem meu avô? Todos menos o do cigarro que insiste marcar a morte de um dos caras mais cheios de vida que conheci.
Queria ter tempo pra todos meus projetos e que os dias tivessem 240 horas, nem que a gente tivesse que viver só até os 50. É tão chato não conseguir mergulhar e ficar lá, explorando todo o mar de cada coisa.
Eu queria que em toda esquina tivesse um "bosque das crianças" pra gente ir quando o calo apertar (todos nós já fomos calmante natural e não nos damos conta disso) e que minha mãe me deixasse ir lá sem avisar. Lá e em todos os lugares, sem avisar, sem pedir, sem nada. Eu queria entender ela, não deixar nada sobressair ao amor que eu sinto e queria saber dizer "te amo" sem ter medo, pras pessoas que ouvem pouco isso de mim. Melhor seria ainda se meu corpo soubesse falar nítidamente as coisas que se passam no coração.
Eu queria que declaração de amor fosse tão seguro como seguro de vida. Queria uma listinha de todos que assinaram o contrato seguida dos seus números atualizados de telefone, e de vez enquando ligar e abrir um baú engraçado, descontraído ou profundo, que principalmente dê orgulho de abrir e descobrir que com uma repaginada aqui, outra acolá, continua o mesmo repleto de histórias.
Queria achar todas as pessoas interessantes, por mais alienadas, tolas ou fúteis que elas pareçam ser. Descubro, de tempos em tempos, que a gente se engana com as pessoas e que muitas que não imaginávamos tem algo interessantíssimo pra dizer.
Eu queria me achar menos perfeita do que eu me acho. Queria entender que os defeitos existem em mim, e não vê-los é o mais grave deles. É difícil, dificílimo, reconhecer que você não é tão boazinha, sincera, madura e organizada como pensa ser. Você tem umas feiúras também e isso é a coisa mais normal do mundo.
Um novo verbo precisa ser inventado, afinal de querer casa do campo e não querer dinheiro já estamos meio cansados, mas enquanto um neologismo não chega, eu queria, ah, como queria.