Sensacionalismo até nas ruas

Ando muito descrente, já há um bom tempo, e isso me preocupava um pouco. Mas com o tempo percebi que eu não estava descrente em tudo, afinal. Religião e política fazem parte de uma parcela pequeníssima das coisas que podemos acreditar. Ainda me sobraram de crenças o amor e a bondade de algumas poucas pessoas, a consciência socioambiental de outras, que se pode perceber ao ler Vida Simples ou, mais perto, a matéria do AN desse domingo sobre sacolas de tecido, entre tantas outras coisas em que eu acredito e que considero de extrema importância.
Sem contar que no que eu não acredito, não fecho a janela e me deixo surpreender. Se Deus existe e se algum político presta, não me impeço de acreditar. E o melhor é que não preciso decepcionar ninguém. Político não espera por credibilidade de ninguém e tudo o que as religiões dizem, salvo auto-violência e "assassinato religioso", sigo melhor que muito fiel por aí.
Então, vamos ao assunto em que quero chegar. Desde que me conheço por gente minha família é petista. Quando a gente é criança e resultado eleitoral é que nem final do Brasil na copa, eu torcia de forma ferrenha pelos candidatos com estrelinha vermelha no peito. Mas depois fui crescendo e virando mais cética e achei sensato que como não acredito, não devo opinar. No fim isso tudo acaba parecendo muito com time de futebol: cada um defende o seu, por maior que seja sua falta de razão.
Só que de vez em quando, mesmo quem opta por não opinar, opina. Porque uma das coisas que faz com que eu considere minha cidade que eu realmente gosto, como interior, como uma cidade pouco evoluída, é quando eu vejo outdoors na rua condenando um deputado federal por apoiar a legislação do aborto. Não vi muitos protestos em relação à isso, mas precisava escrever, nem que seja aqui, onde ninguém da cidade vai ler, pra manifestar minha revolta.
A prova de que a religião e a política, juntas, às vezes fazem um péssimo trabalho, são frases dizendo que quem é a favor do aborto não pode cuidar de você. Em um blog, esses dias achei uma definição com a qual minha opinião bate incontestavelmente: "... ninguém é “a favor do aborto”. Quem já conheceu uma mulher que passou pela cirurgia (e quem não conhece?) sabe que ela sempre representa um momento difícil, duro, de escolha penosa. Reduzir o número de abortos realizados no país é do interesse de todos. É uma pena que os que defendem a manutenção da criminalização do aborto não se mostrem muito preocupados em formular políticas para reduzir os 1,1 milhão de abortos realizados anualmente no Brasil, preferindo a via fácil do discurso moral e da pregação da abstinência que, já está provado, não funciona." (Cássio, O Biscoito Fino e a Massa).
O aborto é um daqueles assuntos longos, demorados e cheio de questões para debater. É óbvio que a orientação sexual, prevenção a gravidez indesejada, etc, são fundamentais e o aborto não deveria se tornar um ato anticontraceptivo corriqueiro, mas já que muitas mulheres, inclusive eu, consideram o direito de escolha SÓ delas, porque não deixar que a população debata isso seriamente, com as questões reais, que já são muitas? Se a gente quisesse sensacionalismo, ligaríamos a TV.

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