Motorista, pára!

Muita gente não gosta de andar de ônibus, eu adoro! Algumas por frescura, já que "pegar condução" as iguala a todas as pessoas pobres que não tem dinheiro nem pra comprar um casaquinho nesse frio, muito menos um carro mantenedor de status. Outras pessoas, conheço um amigo que é assim, não gosta por outros motivos, por se sentir limitado, sufocado. Aí ele anda de bicicleta, e eu confesso, também ia preferir. Sou louca por bicicleta, pela liberdade que ela representa. Eu idealizo bicicletas, mesmo que ande, basicamente, uma vez por ano com a da minha mãe, emprestada. Minha primeira aquisição passa longe de um carro, será uma bicicleta! É uma pena que vivamos num país onde esse meio de transporte é tão pouco valorizado. Seria tão bom que houvessem bicicletas nas ruas pra alugar, como na Europa, e que algumas pessoas fossem assim pro trabalho, diminuindo a emissão de poluentes e o trânsito, o stress, que mesmo em Joinville encomoda.
Mas o assunto é: andar de ônibus têm lá suas vantagens. A gente vê gente diferente, escuta conversas malucas, cede o lugar pra uma pessoa e o olho dela brilha, encontra sempre bastante crianças. É como toda coisa da vida, tem um lado ótimo, mas tem seus momentos péssimos. Onde eu moro bastante gente anda de ônibus, inclusive estudantes de escola particulares como eu. Uns em particular me fazem sentir um pouco de vergonha de vestir o mesmo uniforme. De fazer parte do mesmo grupo de pessoas que diz que o mendigo pedindo ajuda no ônibus fede, que tal tênis ou programa é coisa de pobre. Sinceramente, eu não sei se mendigar seja a coisa mais certa a fazer quando se está abaixo da linha da pobreza, mas impressiona que pessoas cuja luta pra realizar seus sonhos é tão nula quanto a de um mendigo enxam a boca pra dizer "vai trabalhar", se queixam, esperam "esmolas" sentimentais, se consolam acreditando que o sol mesmo, só brilha pra poucos.
Estamos todos no mesmo barco, amigo. Se você fala mal de uma pessoa porque ela "fede" ou ri dela por não ter um tênis caro, quem sabe algum dia alguém ria de você, sua arrogância e inferioridade. Já que (novidade!), ainda existem pessoas que ficam felizes com um elogio aos seus textos, em ver um passarinho lindo parado na calçada, andar de bicicleta ou ver o sorrisso de alguém que pede ajuda num ônibus. Muitas pessoas não gostam de gente, eu adoro!

Jantar íntimo

Às vezes aquele papo, quase um clichê, de cuidar de si mesmo passa tão despercebido, e de repente, sem qualquer intenção a gente pára, faz uma arrumaçãozinha e começa a se deixar fazer aquelas coisas pequeninhas, bobinhas, que juntas constroem o sol nas nossas janelas. Tudo automático, sem manual auto-ajuda ou listinha de objetivos.
Pode começar numa tarde romântica, um monólogo na língua do i que só você e um baixinho (no meu caso, uma baixinha) entendem ou o fim de uma discussão materna horrível com um pedido de desculpa em forma da sua revista favorita. O caso é que da revista você faz um dia de leitura gostosa, do monólogo horas de risada e da tarde romântica, ah, já se basta. Daí tudo é paixão, riso, imaginação.
E quando as coisas começam a caminhar legal, os pés andam sozinhos pelo caminho deliciosamente corriqueiro, enquanto planejo um jantar gostoso em companhia de mais umas horinhas de leitura, poesia e cuidados extras comigo. Nem sempre o salão é o lugar mais certo pra levantar a auto-estima, além de mais barato e prático, preparar um jantarzinho simples e saudável pra curtir sozinha tem um poder incrível para voltarmos às nuvens em ser o que somos. E fica pra semana que vem o domingo cultural, quando a música é que vai cuidar de mim.

Sensacionalismo até nas ruas

Ando muito descrente, já há um bom tempo, e isso me preocupava um pouco. Mas com o tempo percebi que eu não estava descrente em tudo, afinal. Religião e política fazem parte de uma parcela pequeníssima das coisas que podemos acreditar. Ainda me sobraram de crenças o amor e a bondade de algumas poucas pessoas, a consciência socioambiental de outras, que se pode perceber ao ler Vida Simples ou, mais perto, a matéria do AN desse domingo sobre sacolas de tecido, entre tantas outras coisas em que eu acredito e que considero de extrema importância.
Sem contar que no que eu não acredito, não fecho a janela e me deixo surpreender. Se Deus existe e se algum político presta, não me impeço de acreditar. E o melhor é que não preciso decepcionar ninguém. Político não espera por credibilidade de ninguém e tudo o que as religiões dizem, salvo auto-violência e "assassinato religioso", sigo melhor que muito fiel por aí.
Então, vamos ao assunto em que quero chegar. Desde que me conheço por gente minha família é petista. Quando a gente é criança e resultado eleitoral é que nem final do Brasil na copa, eu torcia de forma ferrenha pelos candidatos com estrelinha vermelha no peito. Mas depois fui crescendo e virando mais cética e achei sensato que como não acredito, não devo opinar. No fim isso tudo acaba parecendo muito com time de futebol: cada um defende o seu, por maior que seja sua falta de razão.
Só que de vez em quando, mesmo quem opta por não opinar, opina. Porque uma das coisas que faz com que eu considere minha cidade que eu realmente gosto, como interior, como uma cidade pouco evoluída, é quando eu vejo outdoors na rua condenando um deputado federal por apoiar a legislação do aborto. Não vi muitos protestos em relação à isso, mas precisava escrever, nem que seja aqui, onde ninguém da cidade vai ler, pra manifestar minha revolta.
A prova de que a religião e a política, juntas, às vezes fazem um péssimo trabalho, são frases dizendo que quem é a favor do aborto não pode cuidar de você. Em um blog, esses dias achei uma definição com a qual minha opinião bate incontestavelmente: "... ninguém é “a favor do aborto”. Quem já conheceu uma mulher que passou pela cirurgia (e quem não conhece?) sabe que ela sempre representa um momento difícil, duro, de escolha penosa. Reduzir o número de abortos realizados no país é do interesse de todos. É uma pena que os que defendem a manutenção da criminalização do aborto não se mostrem muito preocupados em formular políticas para reduzir os 1,1 milhão de abortos realizados anualmente no Brasil, preferindo a via fácil do discurso moral e da pregação da abstinência que, já está provado, não funciona." (Cássio, O Biscoito Fino e a Massa).
O aborto é um daqueles assuntos longos, demorados e cheio de questões para debater. É óbvio que a orientação sexual, prevenção a gravidez indesejada, etc, são fundamentais e o aborto não deveria se tornar um ato anticontraceptivo corriqueiro, mas já que muitas mulheres, inclusive eu, consideram o direito de escolha SÓ delas, porque não deixar que a população debata isso seriamente, com as questões reais, que já são muitas? Se a gente quisesse sensacionalismo, ligaríamos a TV.