O que tém lá em cima?

Religião vem sido, desde uns dois anos, muito conturbada dentro de mim. Nada aconteceu que tenha me feito deixar de crer em Deus, coisa assim. A doença sofrida e morte do meu avô, ou qualquer fatalidade de que eu tenha ouvido falar de forma alguma afetaria minha fé, acredito. Um Pai não tiraria os males do mundo, isso impediria seus filhos de crescer. Minha mudança de postura em relação á Igreja, ao catolicismo e até mesmo a existência de um Ser superior tem um histórico processual. Culpa dos professores de história, que contaram horrores do catolicismo, carregados de inquisição e missões jesuíticas. Não menos culpados foram os livros que li, em especial Código da Vinci, que me despertou uma revolta bastante grande. Mas não, educação e cultura não geram descrença. As posturas tomadas pela Igreja Católica são indiscutivelmente condenáveis e por isso tínhamos mesmo que esperar.
Qual instituição, formada e mantida por homens, nunca foi abominável? Ainda mais caminhando de século em século pelos pés de seres humanos, munidos de ambição, orgulho, prepotência e ignorância. Toda repulsa que poderia se ter, deve ser bastante analisada. Você odeia sua família por causa de um tio chato? Eu não, mas as reuniões em que ele está são torturosas. Quando as pessoas ganharam liberdade para escolher se iam ou não ao encontro com esse milhares de "tios chatos" que falavam em nome de Deus, muitas optaram por não ir, outras persistiram em manter a tradição.
A tradição é outra que sufoca. Talvez em razão da minha juventude, contestetadora, revolucionária, fazer algo sem um motivo claro é maçante. Sentir as pessoas te olhando enquanto todo mundo reza, comunga, bate palma, senta e levanta, porque você não está a fim de fazer não condiz com minha idéia de um Senhor Supremo que pretende o Bem à cima de tudo. Não é um conjuto de palavras decoradas, um canto, um mero costume que vai mudar o seu caráter bom e sua postura admirável. Muitas pessoas que eu conheço sabem cantar "Yesterday" perfeitamente, mas não sabem que ela é dos Beatles, porque nunca ouviram falar que salgadinhos compunham músicas. É mais ou menos assim que defino muitos dos religiosos fervorosos que conheço. Podem explicar a Bíblia de trás pra frente, até saber o que significa cada coisa, mas não aplicam em nada no seu dia-a-dia, então, do que adianta?
Apesar de todas as firulas, detalhes e cores que podem fazer parte do meu modo de agir, acredito nas coisas práticas. Uma instituição espiritual tem que fazer o bem imediato para a pessoa mais próxima, não pode perder tempo com rituais mecânicos enquanto existe tanta carência de uma conversa franca, profunda, construtora de uma sociedade que ao invés de tantos preconceitos, paradigmas e vícios (pregados muitas vezes por essas instituições) fosse mais amor, mais leveza de espírito.
E quanto á existência de Deus, o que dizer? "A prova viva de que Deus existe somos nós, feitos de pele e osso", "Precisamos de algo no que acreditar", "Como pode alguém acreditar que Deus não existe?", "No que vamos acreditar quando estiver tudo dando errado e precisarmos que algo nos guie?". É evidente a necessidade do homem de saber de onde ele veio, para onde ele vai e quem vai ajudá-lo entre um e outro, isso explicaria toda existência de Deus para o homem. Mas não deixamos de ter a dúvida: Não será muita prepotência achar que ao contrário de Deus ser nosso Criador, nós sermos os criadores dele?
Essa é uma dúvida que ninguém pôde me saciar com argumentos fortes e inquestionáveis, talvez eu morra sem que alguém o tenha feito. Ainda bem que não estou sozinha, apesar de ser muito fácil crer absolutamente num Deus, numa religião, muitos me acompanham nessa profunda indecisão. A única coisa inquestionável é o poder e a busca de milhares de pessoas pelo Bem. Esse sim, com letra maiúscula, todos podem sentir e viver, o Bem inigualável de ver uma grávida, crianças, velhinhas, negros e brancos, todos juntos num ambiente que por meio de caminhos mais tortos ou mais retos estão lá com um só objetivo: o Bem Maior!

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