Paula tinha muitos sonhos. Escrever um livro, ter um labrador e o seu lugar de destaque no trabalho, aprender a ela mesma fazer todos os presentes que quizesse dar para as pessoas queridas, ter uma viagem que marcasse a sua vida, casar com o seu namorado... Mas os seus dois maiores sonhos eram, sem dúvida, morar sozinha e ter a sua própria família, uma família de verdade. O segundo maior que o primeiro.
Todo mundo vê na sua família "de casa" muitos defeitos, e são defeitos que não se pode mudar quando existe uma hierarquia familiar que impede os filhos de ter voz ativa. Na casa de Paula sempre foi assim. Ela era mil e uma utilidades, servia para lavar a louça que ninguém queria lavar, educar a irmã, apesar de seus pais nunca reconhecerem qualquer autoridade nela, agüentar todas as barras, os problemas, as crises de todo mundo. Mas ela de forma alguma podia manifestar opinião sobre as coisas, que na sua opinião eram absurdas. Seus pais sabiam de tudo, e ela, coitada, não sabia de nada. Não sabia de nada, e dependia do humor deles para tudo que quizesse fazer. Era variável. Quando sua mãe estava na fossa, ou ela deixava a filha sair, ou ela não deixava. Quando estava feliz, era a mesma inconstância.
Mas nem tudo era cinza na vida de Paula. A garota era de classe média quase alta, primogênita (grande parte de suas reclamações só existiam porque, quando pequena, ela fora muito mimada, e ouvir um não sempre foi um suplício para ela) e tinha a capacidade de sempre dar um jeitinho de escapar das limitações que na sua opinião, eram limitadas demais. Um desses "jeitinhos" que mais funcionava, era deixar a imaginação correr solta, sonhar e planejar tudo que ela poderia mudar de alguma forma quando as coisas estivessem nas suas mãos. Por isso o sonho de constituir a sua própria família.
Ela morria de medo de repetir os erros que ela via acontecer, por isso veio ouvir algumas vezes que era "implicante" demais, ela culpava o signo - virginiana perfeccionista. E repetiu, muitas vezes. Apesar de nunca poluir as ruas como o pai, de fazer mágica com o dinheiro de suas primeiras mesadas e de ouvir a irmã que ela tinha como um protótipo de filha com a paciência que nunca dantes tiveram com ela, ela repetia muitos erros. Era nervosa, estressada, emotiva, e cada vez que tinha dos seus rompantes chorava e prometia para si mesma que iria mudar isso. Até hoje ela ainda não mudou tudo, por completo. Mas ela ainda é jovem, muito jovem, e coitada, não sabe de nada. Nem imagina que tudo vai passar e ela vai descobrir que os pais, apesar de todos os pesares, lhe davam uma das mais importantes lições: eles, essas pessoas que a magoam tanto, que são tão diferentes do que ela considera ideal, são as únicas pessoas que com toda certeza para o resto da vida ela vai amar.
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